Thursday, November 01, 2007

Profissão Jornalismo: o difícil começo

Por Aline Moura (*)

Primeiro, preciso esclarecer a dúvida que certamente paira em seu pensamento. Não, o Eduardo Ribeiro não parou de escrever para a coluna Jornalistas&Cia - Cenários. Mas você continua se perguntando: então por que outra pessoa assina a coluna hoje? Explico: Angustiada e inquieta enviei um e-mail para o Eduardo Ribeiro sugerindo que ele abordasse em sua coluna a questão do mercado de trabalho para jornalistas que se encontram na mesma situação que a minha: recém-formados e sem perspectivas. E para minha surpresa, recebi o convite do próprio colunista para fazer esta pauta e aqui estou eu! Durante duas semanas, busquei com profissionais experientes dicas para trilhar os caminhos na profissão. Ouvi conselhos, boas histórias e até presenciei alguns momentos reais da rotina jornalística, e percebi que esses dias foram a minha maior aula de jornalismo. A faculdade me ensinou a técnica e me apresentou a profissão, mas acho que esqueceu algumas lições que aprendi agora.

Assim como eu, o estudante entra na universidade com desejos e ilusões e acaba muitas vezes frustrado com a realidade do mercado. Mas se já no período acadêmico o pontapé inicial foi dado, fazendo estágios, participando de seminários e tomando iniciativas, quando formado este iniciante terá mais chances em relação ao recém-formado que nada fez. Perguntado sobre dicas para os jovens profissionais, o jornalista Ronaldo Lapa, gerente de Comunicação Corporativa da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro e professor de jornalismo na UniverCidade, foi contundente: "É interessante passar, ainda como estudante, por uma situação real de mercado". E foi o que procurou fazer a jornalista Fabiana Lobão, formada há 11 meses, hoje repórter do programa Estado em Ação, na TV Alerj (Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro), e assessora de imprensa do Instituto Vivo. Ainda na universidade, sem medo de ousar, ela correu atrás literalmente do seu espaço.

- É importante ter uma meta e acredito que tive desde o primeiro período do curso, quando fui fazer um trabalho para a faculdade na rádio Transamérica com outras meninas e deixei meu currículo com o responsável. Fui chamada uma semana depois para estagiar na emissora. No mesmo período, conheci um redator da Rede TV e falei com ele que estava interessada em estagiar lá e logo ele me indicou – lembra Fabiana.

Difícil conseguir acesso ao mercado sem nenhuma experiência? Sim. Impossível? Não. Na verdade eu própria me desesperei bastante, a ponto de escrever uma carta-desabafo ao Eduardo, e receber dele "um puxão de orelhas", do tipo, "pare de reclamar e vá a luta. Olha aí que bela pauta você mesma criou e pode desenvolver".

Foi uma importante lição: percebi que sempre é tempo de começar, mesmo que demore um pouco. Vai depender de cada um e do que se está fazendo para reverter a situação. Certo, o mercado é competitivo, mas vagas existem e o importante é saber procurá-las e, principalmente, ter determinação, se preparar constantemente e gostar da profissão. "Mesmo sem oportunidades depois de formada, a pessoa ainda poderá ser jornalista profissional. Eu sou um exemplo vivo. Só trabalhei na área dois anos depois de concluída a graduação", surpreende o jornalista Sidney Rezende, âncora da CBN e apresentador do Bom Dia Rio, da TV Globo.

O iniciante do jornalismo precisa estar atento aos novos nichos de mercado. Aquela visão romântica da profissão, de apresentar um telejornal, ser repórter de tevê ou rádio, escrever para um grande jornal ou uma revista, precisa se adequar à realidade. Não que os jornalistas jovens como eu devam abandonar o sonho de trabalhar numa grande redação, porém precisam compreender que outras alternativas existem e podem ser um trampolim para os objetivos maiores. "Os jornais, as rádios e a televisão estão mais retraídos, mas houve uma abertura de espaços em jornais menores, em assessorias de imprensa, Internet e canais de televisão fechada", comenta o editor Paulo Motta, chefe da editoria Rio do jornal O Globo. Além de se sintonizar nessas novas áreas, quem quer entrar e crescer na profissão precisa entender que o primordial é atuar, é circular pelo meio e conhecer os profissionais.

- O mais comum ainda é chegar ao mercado através do conhecimento de um ou outro jornalista. A concorrência é grande e o candidato deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para demonstrar sua capacidade e sua vontade de fazer jornalismo – destaca Aziz Filho, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro e chefe da sucursal Rio, da revista IstoÉ.

Devemos ir atrás e agarrar as oportunidades surgidas, por menos atraentes que possam parecer. Essa, aliás, é a tese defendida, por exemplo, pelos repórteres esportivos da rádio Tupi, Paulo Júnior e Carla Matera. Para eles o recém-formado não deve desprezar uma chance, mesmo que não seja um emprego com um bom salário. "Claro que para você se firmar, só com muito trabalho e demonstrando que você tem competência. Agora, para chegar em algum lugar você precisa se tornar conhecida", afirma Carla. A jornalista Roberta Guimarães, produtora na rádio Tropical Solimões, formada há quase dois anos, segue isto a risca. Ela acredita que o importante é não ficar estacionada. Mesmo não sendo bem remunerada, ela prefere trabalhar a não ter nenhuma oportunidade. Jornalistas experientes, como Nair Suzuki, editora de Negócios do jornal O Estado de S. Paulo, começaram a carreira sem receber um salário.

- Quando cursava o segundo ano da faculdade, em 1969, candidatei-me a uma vaga de estagiária na sucursal de São Paulo do Jornal do Brasil. Na época, o estágio não era remunerado. Por minha escolha, fiquei trabalhando de graça durante cinco meses no JB. Depois abriu uma vaga na Agência Folhas e fui convidada a trabalhar lá, com carteira assinada – conta Nair.

Um bom caminho para o recém-formado ingressar no mercado de trabalho são os cursos de treinamento oferecidos por alguns veículos de comunicação, conhecidos como programa de trainee. Os principais são: Folha Treinamento, oferecido pela Folha de S.Paulo, o curso intensivo de Jornalismo Aplicado, do jornal O Estado de S. Paulo, e o Curso Abril de Jornalismo, do grupo Abril. Agora estão abertas as inscrições para o programa de treinamento da Folha, pelo site do jornal. Pode se candidatar qualquer pessoa que tenha curso superior concluído ou em andamento, que seja criativa, bem formada e julgue ter talento para jornalismo. Também está em fase de inscrição o curso do Estadão, destinado a jornalistas formados até dois anos ou alunos do último ano ou semestre das escolas de jornalismo de todo o Brasil. Para se inscrever acesse o site do veículo. As inscrições iniciaram em maio e continuam durante o mês de junho.

Vale lembrar que para conseguir uma oportunidade, além da atuação no mercado, o recém-formado precisa se aperfeiçoar. Não precisa nem dizer que a leitura foi a dica unânime entre os jornalistas entrevistados, mas que é recomendada para praticá-la desde a época de estudante, já no ginásio! Ler todos os jornais, revistas semanais, livros e mais livros sobre diversos temas e não somente sobre jornalismo. "Eu acho indispensável a pessoa ler. Lendo vai ter mais vocabulário, mais argumentos e mais informação", ressalta Sidney Rezende. Ter bagagem cultural, ter um bom texto, ser curioso, ser dinâmico e ter caráter, estas são qualidades que Paulo Motta aponta para um aspirante a jornalista. "Bagagem cultural não é só assistir a peças teatrais ou entender pintura, é conhecer história, gostar de sociologia e antropologia, é cultura geral como um todo", explica Paulo. Nair Suzuki vai mais longe nas suas dicas. Para ela a preparação depende muito das iniciativas que o profissional terá. "Estudar línguas, fazer um curso fora do país, fazer uma pós-graduação, cursar outra faculdade etc. O curso de jornalismo, por si só, não prepara o aluno para o mercado", aconselha Nair.

A dedicação deve ser contínua e a perseverança do recém-formado não pode acabar. Manter o
contato com os amigos da faculdade e conhecer novas pessoas. Comunicar, essa é a palavra de ordem para o jornalista. Seguir as dicas dos colegas mais experientes, se informar e estar antenado com o mercado. "Ficar de olho nas vagas e aparecer na hora certa", destaca Aziz Filho. Tudo isso deve ser levado em consideração para o jovem profissional galgar seus espaços.

O mercado, como em qualquer área, é competitivo e vai depender do crescimento econômico do País e justamente por isso a oportunidade surgirá se o jovem jornalista for ao encontro dela. Vai depender exclusivamente do recém-formado, da sua vontade de exercer a profissão, começando em uma pequena ou grande empresa, aceitando um trabalho fixo, um temporário ou um "bico", remunerado ou não, qualquer coisa que o coloque na vitrine do jornalismo. Ficar reclamando, colocando obstáculos em tudo e esperar o seu emprego cair do céu, isto não resolve o problema. Por isso não pensei duas vezes na hora de aceitar o convite do Eduardo Ribeiro. Pode ser que eu ainda não consiga abrir as portas do mercado, mas termino esta coluna consciente que dei um grande passo nessa direção.

(*) Aline Moura - Especial para o Jornalistas&Cia-Cenários. Ela tem 24 anos e é formada pela Universidade Veiga de Almeida - RJ. Estagiou como assessora de imprensa do projeto Jovem Trabalhador Social, desenvolvido pela Coordenadoria Estadual da Juventude, do Governo do Estado do Rio de Janeiro e depois foi supervisora da assessoria de Comunicação da Coordenadoria Estadual da Juventude. No total, trabalhou no Governo do Estado por um ano e cinco meses.

Nota do colunista

O e-mail que recebi da Aline é, de certo modo, recorrente. Vários jovens desalentados com as perspectivas do mercado de trabalho, no Jornalismo, mostram-se desarvorados, perdidos, sem saber por onde começar. Nada mais natural, portanto, que o desabafo.

Com a Aline resolvi devolver-lhe a inquietação: se você está incomodada, se coce, menina, vá à luta. Foi o recado que mandei, só que de uma forma elegante. Propus a ela fazer uma matéria sobre as dificuldades de acesso à profissão e, se possível, até com algumas dicas, para ajudar os demais que se encontram na mesma situação. E me comprometi a publicar seu texto na coluna semanal que assino no Comunique-se, colocando-a, de certo modo, na vitrine (dando-lhe, ao mesmo tempo, a oportunidade e o pretexto de ir atrás de colegas e de conhecer redações, de ver a prática). Ela cumpriu a parte dela e eu aqui estou cumprindo a minha.

Já escrevi sobre o tema outras vezes e volto a insistir: não há mercado de trabalho no Brasil em condições de absorver 5 mil novos jornalistas por ano. Isso não existe. No segmento dos veículos o mercado se retraiu brutalmente nos últimos quatro anos e agora ensaia uma retomada, mas ainda pequena, estando as maiores oportunidades no segmento de assessoria de imprensa e atividades afins. Mas ainda assim nada que se mostre compatível à absorção de 5 mil profissionais por ano. O que nos obriga, num raciocínio bem simplista, a afirmar que a maioria dos jovens que saem das universidades não terá vez nesta atividade.

Se o nosso fosse um País sério, certamente o Ministério da Educação já teria tomado providências de fechar pelo menos metade desses cursos, os quais se locupletam com o dinheiro suado desses alunos e seus familiares, vendendo-lhes ilusões, sem a contrapartida da garantia de trabalho. Formam, ganham o seu dinheiro e literalmente despejam no mercado pencas de meninos e meninas que muitas vezes não sabem sequer onde ir buscar trabalho. Uma desonestidade. Ou, como diria Boris Casoy, "Uma vergonha!". Se não há mercado, não há porque haver cursos formando gente para atuar no vento.

Como, no entanto, a realidade é essa, cabe-nos trabalhar com ela. Se não há mercado para todos, há ao menos para os melhores, para aqueles que escolheram essa atividade profissional por vocação, por desejo e por ambição. Para esses, os obstáculos serão a força de que necessitam para virar o jogo e conseguir um lugar ao sol. Fácil não é, mas impossível também não.

Costumo dizer que a iniciativa é meio caminho andado. Em palestras que às vezes profiro pelos cursos de jornalismo, sempre digo que melhor do que bater na porta de alguma redação pedindo emprego é ir lá e oferecer algum tipo de trabalho (uma pauta, por exemplo), dispondo-se a fazer ou a colaborar com ela.

A matéria da Aline mostra alguns personagens do primeiro time do jornalismo brasileiro que começaram trabalhando de graça, esperando pacientemente uma oportunidade. Isso, 20 ou 30 anos atrás. O mesmo se aplica nos dias de hoje: quem quer vai à luta, enfrenta os desafios, dá a cara pra bater, "invade" as redações, pede uma oportunidade (com uma solução debaixo do braço - isso sempre ajuda), acompanha e analisa o mercado, começa por baixo, enfim, se supera. Isso faz a diferença, como comprovam milhares de exemplos, Brasil afora.

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